15 de Julho de 2008

Mudanças de novo

Eu tirei férias, por que? Pra se ter um olhar “imparcial” sobre qualquer coisa, a primeira medida a se tomar é sentir-se fora daquilo, é estar fora do que acontece, como nas auditorias. Fiz isso e, quando olhei o site, achei o template a coisa mais horrível do mundo. E ele é pesado! 1MB, ou seja, cada vez que alguém digita www.surrealismodoacaso.com a MegaHospedagem registra menos 1MB da minha taxa de transferência. E as visitas andam bem, obrigado pela visita, volte sempre, sua opinião e leitura é tudo que o nosso site mais busca! Mas, quanto mais visitas, mais queima da taxa de transferência… Em suma, vou mudar tudo de novo!

Conversando com a Cris, descobri que meus artigos sobre pintores, sobre surrealismo e anarquia são meio “acadêmicos”, não trazem quase nada de atual, só o que e como foram, nunca o que são ou podem vir a ser. Isso é horrível, ninguém quer saber do passado em um site, se alguém quer saber sobre passado ou procura nos livros ou vai a um musem ou algo do tipo que traz muito mais informações e detalhes. O que eu pretendo fazer de agora em diante é isso, contar um pouquinho da história, trazer o hoje das coisas e dar um possível futuro para elas. Mas primeiro eu preciso mudar o template…

Obrigado pela compreensão!

9 de Julho de 2008

Dos fins

Mulheres em piromancia

rabiscam destino e vislumbram a manhã

sedento de sonho abro meus olhos

e risco no ar o destino do peito amado

dentre todas os astros escolhi o meu rei

ou por ele fui alçada até mais alto céu

a pedra rolada assinala o caminho

da mão que transforma a flor em perfume

e o sol queima a tez sedenta de luz

das trevas a mais tênue luz sobressai

e por ela posso guiar-me nas sombras

um filete de vida extrapola num dia

o cruzar do tempo imortal

homens meninos dançando

em pura alegria giram

na piromancia

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Permitiu-se tudo, de homem

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Surpreendente seu modo de ser

traumático

expondo os segredos do banheiro

em cartões deixados pelo chão

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É ou não é surreal?

Duas coisas descubro todos os dias que gosto ainda mais: o surrealismo e o Huun-Hurr-Tu, um grupo da Mongólia que me foi apresentado a pouco tempo. Aliás, tudo converge a uma outra paixão,

Cancelado… continua. Fazer filme. Ver como gravar no Youtube. Usar o arquivo do Movie Player.

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Não querendo transformar o Surrealismo do Acaso em um blog de moda, mas dando uma puxadinha na sardinha, tenho uns sapatos interessantes para mostrar. Muitos são famosos, como os inacreditáveis sapatos de lótus chineses, outros, menos citados e nem por isso deixam de ser surreais.

Aliás, histórias sobre sapatos são bárbaras…cada modelo tem uma função por mais absurda que seja – isso não se aplica muito nos modelos contemporâneos – e tudo documentado. Pra quem quiser saber que por exemplo na …as mulheres usavam os sapatos …por…e…

Continuando nessa linha temos o…

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Jean-Louis Bédouin; Robert Benayoun; André Breton; Roland Brudieux; Adrien Dax; Guy Doumayrou; Jacqueline et Jean-Pierre Duprey; Jean Ferry; Georges Goldfayn; Alain Lebreton; Gerard Legrand; Jehan Mayoux; Benjamin Péret; Bernard Roger; Anne Sghers; Jean Schuster; Clovis Trouille e seus camaradas estrangeiros atualmente em Paris.

Le Libertaire, 12 de outubro de 1951

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Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

(…)

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.

Paul Éluard

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E assim terminam os começos.

C.

19 de Junho de 2008

Poesia surrealista # et finitum - Maximillien Ernst

DOIS MIL PELES VERMELHAS

Para eles

o tempo existe

em estado abolido

Dois mil peles-vermelhas se abaixam

na planície

felizes de sua ventura

preludiam as sublimidades de suas danças

Eles tragam os dias

tumultuam as noites

Dois mil peles-vermelhas e lúcidos

se preparam para fazer rir a chuva

suas terras enrugadas pelo desejo e pela fome

fazem bater seus tambores a sons plenos

Sons

plenos

Dois mil peles-vermelhas amorosos

se preparam para misturar seu sangue inquieto

ao leite sombrio de suas mulheres muito calmas

ao mel ridente de suas belas crianças

Crianças do século

onde estão vossos tridentes

Dois mil peles-vermelhas

pálidos mas sólidos

deixam as famílias para morrerem à parte

Dez mil peles-vermelhas

o sangue em fogo

sua vida ainda está lá

em busca de demônios

SETE MICRÓBIOS VISTOS ATRAVÉS DE UM TEMPERAMENTO (1953)

Max Ernst - Criador da “colagem” surrealista em 1919 com a qual impressionou Breton, foi expulso do movimento em 1954 por aceitar o Grande Prêmio de Pintura da Bienal de Veneza.

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista - Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.

18 de Junho de 2008

Conto Surreal#2

Um espetáculo ocorria dentro de um apartamento na zona rural de Goiás. Entrei pela janela, como mandava a tradição dos orientais ali presentes.
Uma explosão de som emudecia as bocas fechadas pelo ar condicionado que, de tão forte, fazia com que o assado de porco, recém saído do forno, ficasse resfriado.
Neste momento procurei misturar-me aos contadores de moedas do sofá da esquerda, mas não fui bem sucedido. Ao me aproximar, acabei derrubando alguns centavos pela fresta do sofá.
Afastei-me com medo daqueles olhares e enfiei-me dentro da geladeira. Lá dentro, ofereceram-me pudim de leite condensado. Uma mulher de cabelos longos ofertou um pedaço em cima da tampa da margarina.
Após agradece-la, percebi que batiam na porta da geladeira. Abriram-na. Saí nesta oportunidade e fui para cozinha.
Algumas mulheres gordas, comandadas por um jovem cozinheiro faziam uma prece. Sentados em circulo e de mãos dadas, falavam sobre as pirâmides do Egito, enquanto uma baiana japonesa benzia-os com o shoyo.
Tentei iluminar a situação com uma vela, mas fui proibido de ascende-la, pois o ar já estava rarefeito.
Um homem de aparência oriental me disse que o oxigênio do apartamento era contado na medida exata para os habitantes presentes, e que era a sua função aumenta-lo ou diminuí-lo, de acordo com o numero de pessoas.
Tomou-me a vela das mãos e apontou-me o quarto de maneira efusiva.
Ao adentrar-me no recinto, topei com um caixão e pessoas vestidas de roupas escuras com um olhar melancólico. No entanto, em suas cabeças, um chapéu feito de pele e lã de carneiro aparentemente contrastavam com a situação.
Isto pois dentro do caixão um carneiro jazia.

13 de Junho de 2008

Exposição surrealista em Bilbao - Espanha

Dalí - Um casal com a cabeça cheia de nuvensNosso correspondente na Europa, Rodrigo Camilo, após anos de sua partida enviou seu primeiro material! Camilo, como é conhecido, é um guri de Ipaussu, ou seja, da minha terrinha. Diferentemente de mim, ele estudava e levava a sério o que aprendia na Etel. Resultado? Passou no vestibular da USP e algum tempo depois foi parar na França.

Mas vamos ao que interessa, a foto trata-se de um verdadeiro Dalí exposto em Bilbao, na Espanha durante uma fantástica mostra surrealista. A obra intitula-se Um casal com a cabeça cheia de nuvens e representa o artista e sua endeusada companheira Gala. A composição separada dos quadros (onde a paisagem parece ser a mesma) define a idéia de que os casais apesar de cada um ser um, estão sempre em sintonia, estão sempre unidos. Talvez, por acaso, essa seja a homenagem de Dalí aos casais, e aqui fica essa homenagem (atrasada) do Surrealismo do Acaso para todos aqueles que são uma só paisagem… A foto está ruim porque foi feita a partir de um celular, clandestinamente! Nosso correspondente foi proibido pelas autoridades locais de fotografar qualquer coisa! As obras podem ser melhor visualizadas clicando-se aqui e aqui.

Suprarealismo

A origem da palavra surrealismo, melhor, a genealogia da palavra surrealismo é composta pela idéia da expansão da realidade no chamado mundo das artes. Na Romenia o surrealismo é chamado de suprarealism, não sei se a língua romena tem alguma coisa latina, mas no que tange ao surrealismo, sua significação, se levada ao pé da letra, nos conduz ao mesmo significado. Além do real…

Eu e você somos acostumados a vários tipos de coisas, nos familiarizamos com o cotidiano a ponto de aceitar todo tipo de coisa como normal ou mesmo como real. Vira e mexe com certeza você abre seu navegador e acessa algum site de notícias e lá está algo como: “Membro do RBD posa para revista gay mexicana” ou “Corintianos iniciam campanha no orkut para tirar o goleiro Felipe”. Daniel Cohn-Bendit (um “anarquista” metido a besta) disse em seu “O grande bazar” que quando a humanidade possuísse um mecanismo que os unisse diretamente sem que precisassem sair de suas casas a coisa seria diferente…

Ong´s são financiadas pelo governo, governos são moldados por Gno´s (Grupos nacionais oportunistas, mais conhecidos como Partidos), o governo financia os filmes, os filmes são contra o governo, metade dos brasileiros resolveu fechar os olhos, a outra adormeceu, televisão é cultura, novela uma cátedra e eu sozinho no dias dos namorados…

12 de Junho de 2008

Poesia surrealista #2 - Salvador Dalí

Gala,

não está incluída

no círculo

de meus objetos de relações

teu amor está de fora

das noções comparativas e mendicantes

dos sentimentos humanos

porque não tenho sentimento algum por ti

porque os sentimentos supõem a ausência do amor

ou sua fraqueza

e é de fora de todo sentimento

que a representação pura e única

dos meus desejos

me liga sem medo

as representações violentas de minha morte

e é ainda

fora dos sentimentos

que a representação pura e única

me faz entesar e descarregar

fora

imagens hipnagógicas suplementares

da masturbação

fora

da curva nostálgica

dos lugares-comuns perversos

fora dos relógios sensibilizáveis

por meio

de uma multidão de tinteiros

colocados em equilíbrio

ao longo de teu corpo alongado

sobre um travesseiro de algas marinhas

cor de merda

de fora

das estratificações mentais

que nascem

de origens hipoteticamente sensíveis

da fixação nacísica

de meus próprios cheiros

hierarquicamente

o cheiro dos meus pés

o cheiro do debaixo de meus colhões

o cheiro da minha glande

o cheiro das minhas axilas

o cheiro de minha própria merda

O AMOR E A MEMÓRIA (1931)

Salvador Dalí - Seus poemas estão reunidos em La Femme Visible (1930) e L’amour et la Mémoire (1931).

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista - Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.

10 de Junho de 2008

Um Conto Surrealista

As cordas daquele instrumento maldito fizeram-me desfrutar de um desejo carnal saliente. Um deja-vú fez-me lembrar da crosta terrestre do meu bairro. Corri em direção a ele, com uma moto-a-vela, emprestada do capitão da polícia. O som do martelo de vento disparou-me às minhas costas como se fosse uma caneca de chá.
Algo escorreu-me às pernas.
Um energético de frutas vermelhas fez-me acordar do tombo. Nada fazia muito sentido naquela noite ensolarada e fria. Os patos faziam cesta a minha volta e aquele som ainda me excitava. Como poderia me satisfazer?
Apanhei um bocado de lenha e construí uma estatua do que poderia estar pensando. Mas logo que ficou pronta, senti um frio na espinha e ateei fogo. Aquilo ficou indemonstrável e indecente! Esquentei-me com a fogueira apagada pelo sol, que refletia na água, respingando nas margens daquele rio, que, com o tempo, chegou a secá-lo completamente.
Um vulto contou-me aos sussurros, da periculosidade com daquele local. Contou-me uma história de pessoas que morreram ali, pois lutavam e se matavam por algum pedaço de pano simbólico.
Satisfeito com o sermão, continuei buscando satisfazer-me. A medida que corria, acompanhado pelos patos, percebi que estava descalço. Agradeci (acho que aos patos) por isto, pois meus pés desnudos fizeram-me sentir um alçapão no asfalto da floresta do rio seco.
Desci por uma imensa escada, que me levaram a um estabelecimento comercial de velas para navios antigos.
O atendente logo veio maldizer o tempo, pois, segundo ele, não chovia há algum tempo.
Perguntei-lhe daquele som que ouvira e que buscava com empenho, mas ele ruborizou a face e me ofereceu um café.
Concordamos, naquele momento, em ler o jornal: “Ouro reabilita droga anti-HIV em teste”
“Inglaterra poderá fazer vinho “francês” em 2080´, diz estudo”.
Após as conclusões necessárias, voltei ao bairro movido por aquele deja-vú para tentar achar outra pista daquele som sujo e chamativo.
Indecifrável e bem escondido, desisti. Acabei, segundo o significado de um vernáculo do dicionário, no seu sentido figurado, em uma “inutilidade de tratar os mesmos temas (considerados infecundos), numa discussão ou pesquisa intelectual ou artística, de modo repetitivo, complacente e inconcludente”.

6 de Junho de 2008

Poesia surrealista #1 - Hans Arp

O PAI, A MÃE, O FILHO, A FILHA

O pai se pendeu

em lugar da pêndula.

A mãe está muda.

A filha está muda.

O filho está mudo.

Todos os três seguem

O tiquetaque do pai.

A mãe é de ar.

O pai voa através da mãe.

O filho é um dos corvos

da praça de São Marcos de Veneza.

A filha é um pombo-correio.

A filha é doce.

O pai come a filha.

A mãe corta o pai em dois

come-lhe uma metade

e oferece a outra ao filho.

O filho é uma vírgula.

A filha não tem cauda nem cabeça.

a mãe é um ovo galado.

Da boca do pai

pendem caudas de palavras.

A filha é uma pá quebrada.

O pai é pois forçado

a lavrar a terra

com sua longa língua.

A mãe segue o exemplo de Cristóvão Colombo.

Anda sobre suas mãos nuas

e agarra com seus pés nus

um ovo de ar após o outro.

A filha remenda o desgaste de um eco.

A mãe é um céu cinza

em que se arrasta embaixo bem embaixo

um pai de papel mata-borrão

coberto de manchas de tinta.

O filho é uma núvem.

Quando chora chove.

A filha é uma lágrima imberbe.

O VELEIRO NA FLORESTA (1957)

Hans Arp

Poeta, pintor e escritor, uma das maiores figuras da arte dadaísta, surrealista e abstrata.

Fonte: Os arcanos da poesia surrealista - Seleção de José Pierre e Jean Schuster com tradução de Antônio Houaiss. Editora Brasiliense.

5 de Junho de 2008

Instante

despencando do reverso vazio as abóboras sublimam o fluxo vão da fome antagônica

pencas perdidas do horizonte de eventos em salpicos flácidos de gota tangente

tudo e cor e soslaio crescente em fluídas repartições concêntricas

em espirais exclusas de dor

só formas

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